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A cultura americana e o cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.16

 

 

Neste rio sem regresso navegam filmes do cinema americano que vi na infância na televisão a preto e branco, na adolescência no cinema, e mais tarde nos DVDs, nos CDs e nos canais por cabo.

O cinema americano serviu e divulgou a cultura americana mas também deixou as suas marcas culturais, uma certa inovação nas ideias e nos comportamentos, uma certa irreverância crítica, uma certa frescura a saber a futuro.

 

Peguei nesta ideia da influência mútua, cultura americana e cinema, para iniciar uma série no It Happens Every Spring, de um filme por semana até às próximas eleições americanas em Novembro. A ideia inicial era tentar perceber o fenómeno Trump. Como era possível esse fenómeno na América do séc. XXI? A verdade é que soma votos populares nas Primárias e segue para Bingo no partido Republicano.

A pouco e pouco, e ouvindo alguns experientes jornalistas independentes, comecei a vislumbrar a complexidade do fenómeno e a razão da sua popularidade. O fenómeno deve o seu motor ao próprio sistema político americano, à sua decadência, à sua adulteração, aos seus desvios democráticos. Os partidos deixaram há muito de representar os cidadãos para representar os grandes grupos corporativos, e tudo isto ficou mais visível depois de 2008 ao socorrerem os bancos (a finança, o mundo virtual) e deixarem na rua famílias inteiras (a economia, a vida real).

 

O primeiro filme desta série é um Preminger, The Man with a Golden Arm. O jazz acompanha as personagens, o ambiente claustrofóbico e decadente dos vícios, as terríveis dependências compulsivas que destroem a vida, os afectos, o futuro. O que salva Frankie é a amizade de Molly.

É interessante ver como a amizade é compassiva mas não é cobarde. A partir do momento em que se aceita arriscar o salto para o desconhecido, a privação de uma substância, o pesadelo será enfrentado pelos dois. São dois seres livres os que conversam calmamente nessa manhã.

A amizade talvez seja o afecto mais verdadeiro e genuíno entre pessoas livres. É isso que sobressai no filme. A manipulação egoísta e doentia que o espera em casa acaba por ser desmascarada. Os manipuladores são fracos, apesar de abusarem do poder sobre outros. 

 

 

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publicado às 20:52

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

A maturidade do adulto, num filme dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.12

A minha caminhada voltou a aproximar-me deste rio. Talvez tenha ouvido de longe o seu sussurro, na voz da Marilyn: I can hear the river call… come to me … Desci, pois, até sentir o barulho suave da água sobre as pedras da margem. Um sorriso ilumina-me de repente: pelos vistos, não me consigo afastar muito deste rio.

  

Hoje pego no filme de Anthony Mann, The Tin Star (1957), para continuar o raciocínio que iniciei aqui. O título pode parecer provocatório: então é preciso ir a um filme dos anos 50 para ver o que é a maturidade de um adulto? Ou dito de outra forma: então já só vemos adultos nos filmes, e ainda por cima, dos anos 50? Mas a verdade é que um adulto é uma personagem cada vez mais rara, uma preciosidade. A maturidade do adulto é, pois, uma capacidade raríssima hoje em dia.

 

O cenário é muito típico dos filmes dos anos 50 no oeste: uma cidade temporária, de madeira, em que cada edifício está bem identificado. A preto e branco, como as próprias personagens, os seus valores e atitudes.  

Um ex-xerife céptico da justiça e dos homens dirige-se a uma cidade para recolher a recompensa da captura de um criminoso. Os habitantes da cidade recebem-no, paradoxalmente, de forma hostil. Todos à excepção de quatro personagens: o jovem xerife, o velho médico, o rapazinho meio índio e a mãe do rapazinho. Cada um por razões diferentes. O jovem xerife condicionado pelo ideal de justiça, o velho médico formado pelo ideal do respeito pela vida humana, o rapazinho pela sua natureza afável e ingénua e a mãe do rapazinho pela sua confiança primordial nas pessoas.

 

Como os melhores filmes do oeste dos anos 50, vemos desenrolar-se à nossa frente as diversas facetas da natureza humana: o medo e a desconfiança do grupo que funciona pela dependência mútua, mas também capaz de reconhecer os melhores de si e de por eles se sentir inspirado; a sensatez, tranquilidade e bondade do velho médico; a capacidade de empatia e confiança, da mulher afastada do grupo por preconceitos raciais; a afabilidade e ingenuidade do rapazinho; o ódio básico e desejo de poder, mais do que de vingança, do assassino; a avidez estúpida e primária do ladrão-assassino, sem capacidade de gratidão ou empatia; a empatia e gratidão do ladrão, irmão do ladrão-assassino.

 

Mas é à volta das facetas das personagens mais complexas deste cenário, o ex-xerife e o jovem xerife, que gostaria de desenvolver o tema da autonomia do adulto.

 

Vemos o idealismo do jovem xerife sobrepor-se ao bom senso e ao próprio instinto de sobrevivência. A namorada insiste com ele para largar aquela estrela de xerife, não quer transformar-se numa viúva, e lembra-lhe o que aconteceu ao xerife anterior. O jovem xerife agarra-se à estrela como a um símbolo de coragem, o ideal de justiça, manter a lei e a ordem. Embora a sua teimosia nos possa surgir como altruista e elevada, mesmo sacrificial, há qualquer coisa de imaturo nesta atitude, como um adolescente que quer provar aos outros a sua bravura e coragem. Ainda não estamos na autonomia do adulto.

 

O ex-xerife já perdeu as ilusões de justiça, da lei e da ordem, sabe tratarem-se de ideias que só raramente funcionam e, mesmo quando funcionam, deixam para trás morte e destruição. Ele é pela vida, nada se sobrepõe a esse valor. Nesse valor fundamental acompanha o velho médico. Só se afasta dele na questão da auto-defesa, na preservação da sua própria vida, não se expondo a riscos desnecessários. Mas no momento decisivo sabe qual é a sua prioridade: coloca a vida do rapazinho acima de qualquer justiça, lei ou ordem.

 

A maturidade do adulto está, pois, nesta personagem que nos surge tão imperfeita: cepticismo, desencanto e desilusões relativamente à natureza humana e ao funcionamento dos grupos que já viu como facilmente se transformam em bandos; preconceito racial que, como reconhece após conversas esclarecedoras com a mãe do rapazinho, reflecte a forma como foi educado; uma distância defensiva relativamente aos afectos, embora a nostalgia dessa harmonia familiar se mantenha.

 

Um adulto é capaz de se distanciar do condicionamento grupal, não está condicionado pelo desejo de aprovação social. Um adulto é capaz de reconhecer os próprios erros, auto-avaliar-se, corrigir a sua atitude. Um adulto é capaz de sentir a dor da perda, não a tenta compensar com o ódio destruidor ou o desejo infantil e primário de vingança. Um adulto está mais próximo da sua vitalidade e, por isso, é capaz de empatia e respeito pelos outros. Um adulto tem as prioridades no lugar certo, defende o valor primordial da vida: a vida do rapazinho é muito mais importante do que o respeito pela integridade física de um assassino de forma a cumprir a lei.

 

 

Apenas uma cena que descobri no youtube:

 

 

 

 

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publicado às 17:05

A genica inesgotável das senhoras de uma certa idade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.09.10

 

Raros são os homens que mantêm esta genica na velhice, mas existem. Esta genica de que vou falar hoje é própria das senhoras de uma certa idade, a partir dos 80 e tal aninhos, as felizardas! Bem, as que têm a sorte de viver no seu espaço-tempo próprios, com alguma autonomia. Não estou a falar das que, por circunstâncias da vida, não têm essa sorte.

Já tinha constatado este fenómeno na vida real, não precisava de ver documentários ou filmes a confirmar isto mesmo. Lembro-me em especial de um documentário filmado num lar de idosos (palavra horrível), em que a senhoras se queixavam de ter perdido os maridos há anos e as que não os tinham perdido, era ainda pior!, viam-nos dormir todo o tempo sentados num cadeirão. Este desequilíbrio é terrível a partir de uma certa idade. Porque as mulheres, quando mantêm os neurónios afinados, têm uma necessidade inesgotável de comunicar, de conversar, ou de se entreter numa qualquer actividade, algumas até cantar e dançar. Neste lar as actividades eram promovidas, assim como a autonomia (se os nossos lares fossem todos assim...), e eram as mulheres as mais entusiastas. O pessoal pareceu-me especializado, não notei ali tiques de paternalismo, insuportável mania dos nossos técnicos, por melhor intencionados que sejam! Davam-se passeios de autocarro, e se não podiam ir ao teatro ou aos espectáculos, havia sempre teatro ou espectáculos a vir ao lar. Mas só alguns homens participavam na animação. A maioria ou dormitava num cadeirão ou mostrava-se alheia a tanta agitação.

 

Há, evidentemente, outras razões para este desequilíbrio: a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto. No Japão, por exemplo, noutro documentário que vi, os homens encaravam muito mal o regresso a casa depois de uma vida de rotina de trabalho no exterior. Mas pior do que eles, eram as mulheres a adoecer com a presença dos homens todo o dia em casa. Têm até uma expressão muito elucidativa para designar os homens na reforma: uma folha de outono molhada colada à parede. Estão a ver? Muitas acabavam no psiquiatra e foram aconselhadas a mudar as suas rotinas: muito bem, os homens ficam em casa, elas saem de casa, há tantas actividades possíveis em grupo, cursos de arranjos de flores, por exemplo, ginástica, natação, yoga, voluntariado, ou mesmo voltar a estudar. Mesmo por cá, vemos imensas mulheres a fazer o mesmo. Embora por cá se encontrem sobretudo viúvas, que querem manter uma vida útil e activa, e não encarar a casa vazia todo o dia.

 

Se estas mulheres tiverem a sorte, como disse, de se manter activas e com alguma autonomia, podem ser extremamente perspicazes, nada lhes escapa. Os seus neurónios trabalham numa espécie de ligações rápidas e directas, em auto-estradas, e ligam só o essencial de cada problema que lhes apresentem. É certo que há ali interferências de preconceitos culturais, algum peso da tradição, o que é certo e o que é errado, o que é próprio e o que é impróprio, mas fora isso são muitíssimo práticas e inteligentes. Lembram-se daquele filme com o Peter Sellers? Em que um grupo de ladrões do pior invade a casa de uma velhinha e, quando se vêem descobertos, a tentam matar mas não são bem sucedidos? A velhinha é simplesmente uma valentona, nada a demove ou intimida!

 

Esta energia e coragem vem não se sabe de onde. Eu própria já me senti incapaz de acompanhar a genica de algumas senhoras de idade digamos assim, uma experiência nada nada edificante. Às vezes imagino-as ligadas a uma pilha Duracell, a sério! Aliás, foi o que sentiu o protagonista de um filme italiano, simplesmente delicioso, que vi semanas atrás na RTP2, Pranzo di Ferragosto. Aquele almoço em Agosto deixou-o esgotado, de rastos. E tudo começou com várias contrariedades: o mau feitio da mãe, pouco receptiva a receber convidadas em casa; uma das convidadas, amuada, que se fechou no quarto, deixando-os privados da sala de jantar para as refeições. Só a tia Maria, a especialista da pasta, se portou bem desde o início. Além de o orientar na pasta, acolheu a mãe do médico, a terceira convidada, a pedido do médico, pois estava de banco nessa noite. Contrariedades e responsabilidades: a mãe do médico vinha com restrições alimentares mas atirou-se à pasta, de noite e às escondidas, farta de comer legumes cozidos. A convidada que tinha amuado saiu de casa em plena noite sem avisar ninguém, foi descobri-la toda apinocada numa esplanada. Quando finalmente a convenceu a regressar a casa, queria jogar às cartas, dançar, e ainda se mostrou atrevidota. A paciência do nosso santo homem estava a esgotar-se. Noite mal dormida, de manhã descobre as quatro em alegres conversas, muito animadas. Investem generosamente no almoço e tudo. E ficam a pôr a mesa com todos os requintes enquanto ele vai, com um amigo, de vespa, escolher o peixinho fresco para o almoço. Almoço memorável, todos felizes, vinho fresco, conversas animadas. O nosso protagonista dá por falta do amigo e vai descobri-lo a dormir no quarto, esgotado. Desata a rir. É que ele tinha aguentado até ali. E não é que quando volta ao almoço animado, as senhoras o subornam indecentemente para mais um dia daquele alegre convívio?

Delicioso filme-documentário. Vemo-los dançar em plena sala, no final. Já tinha saudades de filmes-documentários assim... que se aproximam de forma despretensiosa da realidade do dia a dia normal (?) de tantas pessoas por esse mundo fora, vidas simples (??) ou vidas mais complicadas, mas que se podem simplificar quando existem protagonistas assim, com uma paciência de Job...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:16

Razões que a razão desconhece - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

 

Não o vi no cinema, esperei pelo DVD, ou que aparecesse nalgum dos TVCine. Sim, foi assim com este Benjamin Button, a que resisti até a curiosidade vencer. Razões desta resistência não as consigo identificar. Tinha registado dele as imagens em sépia, aquele rapazinho-velho entre talas, a erguer-se e a tentar caminhar. Isso foi na nomeação para os óscares de há 2 anos. Dos filmes nomeados destacam sempre a tecnologia e não a mensagem, a densidade da mensagem, a poesia da mensagem. E este filme revelou-se como uma das minhas mais incríveis descobertas!

 

O primeiro impacto: as pessoas comuns que são tudo menos comuns. A forma como valorizam o essencial. A forma como nunca ficam indiferentes aos outros que com eles se cruzam neste mundo, aceitando sabiamente o que a vida lhes vai revelando. Não é resignação, é outra coisa. Também não é propriamente rendição, é mais aceitação filosófica e tentar aproveitar o melhor de todas as possibilidades. Será essa a aprendizagem de Benjamin Button.

Outro impacto: a incrível poesia que o filme respira, levemente humorística (o raio que insiste em ser atraído por aquele homenzinho sobrevivente; o lado sombrio de um colega de trabalho no rebocador, chamado Grimm; o capitão que insistiu em ser quem era, um artista, não se conformando com o papel que o pai lhe impusera) e intensamente filosófica (a lealdade da amizade, a descoberta do amor, a superação da revolta, a aceitação do inevitável, a rendição final).

 

Este filme vem na linha poética de filmes dos anos 60, mas esta já é uma visão pessoal. Já me referi aqui a um filme que me deixou hipnotizada pela sua simplicidade poética: To Kill a Mockingbird. De como estes filmes dos anos 60 iniciam uma nova sensibilidade em cinema e que estarão na base de um Eduardo Mãos de Tesoura do Tim Burton, ou de um Forrest Gump, ou de um Benjamin Button. Uma nova sensibilidade na câmara, nos planos, nas personagens e nas sequências, na acção, nos diálogos e nos silêncios. Estes filmes vivem muito de silêncios. E as frases são de uma enorme densidade.

Sim, os silêncios. Que aqui são silêncios vivos, sentimo-los como uma atmosfera que vibra. O segredo: a autenticidade das personagens, mesmo que a verosimilhança seja apenas a da própria vida, passar pela vida e sentir que não se viveu, ou seguir um sonho e ter de o abandonar, ou a possibilidade de se redimir de um abandono, ou procurar recomeçar tudo de novo.

 

Benjamin não foge dos seus sentimentos, não foge do sofrimento que os acompanha, e mesmo que a sua vida guarde essa armadilha da solidão e do desencontro, na verdade ele vive-a no encontro e na comunicação. Aceita-a filosoficamente, aprende com as experiências e as pessoas que a vida lhe traz até à casa a que chama a sua casa.

Esta foi a grande aprendizagem transmitida pela mãe. Esta é a sua mãe e não poderia ter sido outra. Verá mais tarde uma fotografia de uma mulher lindíssima. Histórias paralelas que soam tristes e longínquas. Libertar-se-á de todas as histórias como uma doce despedida. 

 

Sim, se pudesse sintetizar este filme, escolheria: doces despedidas. São todas despedidas doces, nem demasiado dramáticas nem demasiado distantes: deixar-se ir.

 

Ainda há muito a dizer da descoberta deste filme. Mas fica para amanhã...

 

 

Ainda sobre Benjamin que alguns seus próximos lhe dizem ser muito especial... lembrou-me vagamente outra personagem, o Larry d' O Fio da Navalha de Somerset Maugham. Por outra razão que a razão desconhece. Ambos são especiais no sentido de diferentes na forma como vivem e interagem com os seus semelhantes, de uma forma sempre amável com todos mas autónoma, que não lhes pesa. Só que Larry é impermeável à influência de outros a não ser à de um mestre espiritual que conhece na Índia salvo erro, e Benjamin é completamente permeável às aprendizagens e às experiências. É aliás isso mesmo que o torna tão querido pelos outros. É isso também que o leva a entender os outros como se estivesse na sua pele, e aqui lembro-me de Acticus a explicar à filha de como se adquire a empatia, essa capacidade necessária para entender e conhecer os nossos semelhantes, aqui referindo-se a Boo.

 

Jogar com o tempo é sempre atractivo para criaturas que vivem obcecadas em travá-lo a todo o custo. A recente obsessão civilizacional, tudo controlar, o prazo de validade e a aparência de juventude. Será assim com a bailarina, até porque a carreira de uma bailarina é muito curta, como Benjamin lhe diz para a consolar. Quando se perde a linha nunca mais se recupera, é a frase terrível, mas uma manhã ela promete-lhe deixar de ter pena de si própria.

 

A obsessão pelo controle é muito português, sobretudo o controle de outras criaturas, penso até que essa obsessão estará na origem de muitos desvios de comportamento e de muita agressividade oculta nas relações interpessoais. Há demasiada interferência na vida uns dos outros. Mesmo nos locais de trabalho, sente-se esta necessidade de controlar outros, exercer o seu poder, e sobretudo mostrar a outros que se é poderoso ainda que numa ínfima escala ou que, no final de contas, se trate de um poder alucinado. 

A origem desta lógica doentia? A relação maternal, demasiado protectora? Não me parece que seja explicação suficiente, mas a protecção esconde realmente a necessidade de controlar a criança, não a deixa crescer, respirar à vontade, sufoca, cria dependências. É uma forma de impedir a autonomia e que dá sempre em revoltas estéreis ou rebeldias inconsequentes. Também esconde o desejo oculto de parar o tempo e manter-se no mesmo papel de poder sobre as criaturinhas.

Já me estou a desviar claramente do Benjamin mas não resisti a deixar-me levar por esta hipótese de explicação possível para a grande incidência de perturbações psiquiátricas na população portuguesa, o tema fascina-me. E esta ideia do controle não andará muito longe de uma explicação possível. Afinal, não é um dos países com mais telemóveis por habitante? E não vemos nós os nossos semelhantes pendurados ao telemóvel a toda a hora?

Outra razão que pode estar relacionada (ou não) com a necessidade de controle é ser um povo muito territorial, muito cioso do seu quinhão, da sua propriedade, mesmo que isso o impeça de se mover ou mesmo que isso o obrigue a voltar. Quando os entrevistam lá fora invariavelmente surge o termo saudade, como um sentir falta do seu lugar, da família, dos amigos.

 

Voltando ao Benjamin, amar a sua família e os amigos não o impede de dar a volta ao mundo e estar receptivo ao que a vida lhe traz, uma nova família e novos amigos (as pessoas que vêm morar nos quartos alugados, os colegas de trabalho no rebocador, a mulher inglesa que conhece num hotel em Murmansk). Aqui tudo parece natural, fluir, sem interrupções de sentido, nem fracturas na sua base, mesmo que os bem-amados partam, alguns subitamente, as tais doces despedidas. E mesmo nessa despedida tão difícil, porque surge da necessidade de libertar a mulher e a criança de mais um peso, um velho-criança, acontece porque tem de acontecer.

 

A construção da narrativa é também engenhosa, um narrador duplo: Benjamin no diário, e a filha, que o lê a uma mãe próxima da doce despedida final.

Talvez Benjamin me venha revelar mais alguma razão oculta para me ter impressionado e comovido. As palavras não são suficientes para as revelações mais interessantes. Sabemos isso mas ainda não inventámos melhor forma de comunicar. Bem, o cinema já é uma melhor forma de comunicar, não é?

 

 

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publicado às 22:03

"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

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publicado às 19:55

A vulnerabilidade e a coragem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.12.09

 

É véspera de Natal e ela está sozinha. Sentada naquele sofá.

“Estava a olhar para o céu…”, diz a mulher para o homem quando verdadeiramente se reencontram. Ela já embrulhada no xaile branco de renda que ele lhe trouxera de casa da avó.

A vulnerabilidade. Tão injusta. Tudo o que nos pode acontecer. A vida feita de imprevistos.

E a capacidade de olhar a realidade e continuar. A mulher continuou. O homem, paralelamente, continuou. Mas sentiam-se estranhamente incompletos.

Quem não sonha com um final feliz para estes dois? Mesmo que sejam personagens pouco verosímeis! Ou talvez por isso…

 

 

 

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publicado às 01:02

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

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publicado às 11:31

É possível resistir à linguagem do poder

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.07.08

 

O que mais impressiona em The Little Foxes é a linguagem do poder e da manipulação, perfeitamente visível num clã sulista, os Hubbard, comandados pela irmã (magnífica Bette Davies).

Esta mulher dominadora tentará domesticar a filha como pensa ter domesticado o marido. Pura ilusão, este homem suave e de saúde frágil segue valores sólidos, dos quais não irá abdicar nunca. Sim, ao marido terá mesmo de o neutralizar.

É que para conseguir levar a cabo os seus planos ambiciosos, esta mulher utiliza todos os recursos possíveis da paleta: insinua-se, seduz, manipula e recorre à chantagem. É assim que consegue dominar o seu pequeno mundo: os irmãos, o sobrinho e, por arrastamento, a cunhada. O grande negócio está prestes a ser conseguido. O acesso à alta sociedade da grande cidade também.

 

É certo que a filha (comovente Teresa Wright) já mimetiza, de certa forma, os seus tiques de snobismo e de arrogância. Mas no final serão os valores do pai e do namorado que prevalecem, sobre a influência materna. Sim, a filha resiste-lhe no final e escolhe o caminho da vida real, dos afectos e do respeito pelos outros.

Impressionante confronto entre uma Bette Davies subitamente solitária, subitamente assustada, no cimo da escadaria, e uma comovente Teresa Wright em baixo, no "hall", a olhar para cima, tão jovem, tão doce, tão magoada, e no entanto, tão forte, a despedir-se da mãe.

Trata-se da opção pela vida, pela liberdade, pela autonomia. Aqui vemos o perfeito contraste com a linguagem do poder, da manipulação, da dependência. É esta, a meu ver, a ideia central do filme. O mais forte é, no final de contas, o mais fraco; o que pensávamos mais fraco é afinal, o mais forte.

 

Mas não nos iludamos: a linguagem do poder, na sua voracidade insaciável, faz estragos. O amado pai da nossa jovem jaz, morto, lá em cima, no seu quarto. E por pouco também ela própria se podia ter deixado enredar na terrível influência materna e ter-se transformado numa sua segunda versão, anulando todas as possibilidades de crescer, de se autonomizar, de se afirmar de forma saudável, de amar e ser amada.

Na cena final vemo-la com o namorado, pelo pátio exterior da casa, na noite chuvosa. Numa das janelas, o rosto impressionante da mãe, a vê-los afastar-se.

 

 

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publicado às 15:13

Nada substitui a companhia de outro ser humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.07

All that Heaven Allows. Uma mulher na sua viuvez conformada. Vários filhos. Família típica americana dos anos 50. Uma vida aparentemente perfeita. E uma empatia que nasce, a alegria de uma companhia com alguém genuíno, livre, que coloca os afectos à frente das convenções sociais.

Os filhos seguem as suas vidas, vão para a universidade. Ela fica sozinha. O egoísmo inconsciente da juventude! É mais confortável manter a mãe condicionada ao papel de mãe, mesmo já não precisando dela como antes. Irão insurgir-se contra o afecto da mãe por esse homem mais jovem. Irão querer substituir esse afecto, essa companhia, por uma televisão.

No filme, a mulher não desiste do afecto e da companhia. Até porque aprecia a companhia deste homem… calmo, afectuoso, sensato, culto. A casa reflecte isso mesmo, um espaço que acolhe, que aconchega. É essa ideia que fica a sobressair, a de uma companhia.

Magnífica previsão da solidão actual. Substituem-se pessoas, uma companhia, por uma televisão ou por um computador. Mas já não são apenas os mais velhos, os solitários sem alternativa. Agora são os próprios jovens a preferir o computador ao contacto humano.

 

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publicado às 15:42


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